“Não critique meu vocabulário!"


Em tempos avançados de Facebook e WhatsApp, a linguagem formal está definhando. E quem “paga o pato" é o professor por querer ensinar a norma culta!


Einstein dizia que, se você não souber passar conhecimento de forma simplificada, por mais complicado que seja o assunto, então, você não sabe sobre esse assunto!

Ótimo. Concordo! O professor deve ser claro, conciso, simples. Assim mesmo, deve ter um bom vocabulário para passar aos alunos um conteúdo de qualidade.

Porém, o que não acontece, para variar, é a compreensão amorfa de muitos alunos que não entendem nem o linguajar simples dos professores. E o pior, mesmo, é encontrar no “vasto vocabulário" desses mesmos alunos de hoje, mestres em aglutinações e abreviações toscas, caçanjes e solecismos horríveis, devido ao modo de escrever usando dispositivos móveis (telefones, tablets, computadores etc). É sobre o vício de falar, escrever e digitar de forma completamente distópica deles que esse texto pretende discorrer.

Motivos

Primeiro, acredita-se que muitos alunos tenham tido problemas com alimentação intrauterina durante a gestação da mãe. Muitos, ao nascerem, chegam ao mundo com problemas de nutrição e isso vai se desdobrando até a fase crítica da cognição infantil. O aprendizado fica comprometido e os problemas são muitos: falta de compreensão de conteúdos básicos, problemas de visão, comprometimento intelectual deficiente e muito mais.

Muitas crianças desenvolvem condições especiais como TDHA (déficit de atenção) e são superativos (não conseguem concentrar-se em nada). Essas condições podem ser resolvidas por profissionais competentes. Mas, há outros problemas, como será visto abaixo.

Muitos pais ausentes, para “recompensar" seus filhos pelas suas ausências (devido ao trabalho ou, condições familiares), enchem-lhes de presentes caros. Um deles é o celular. A comunicação é importante, claro, mas, nem todos sabem como uma série de fatores tem sido bastante preocupante em relação ao modo de escrever e falar dos alunos.

O “internetês" veio com emojis para abreviar emoções, depois, vieram os memes… e agora há uma comunicação cifrada, uma versão do idioma parecendo códigos, como “TMJ" (tamo junto), “VLW" (valeu), e outras loucuras. Muitos vão defender esse “progresso" como aquilo que faz parte da evolução na comunicação, mas, isso está transformando os alunos em verdadeiros zumbis ansiosos, sem tempo para uma compreensão geral de um texto, de uma matéria e de um raciocínio. Uma grande parte não consegue concentrar-se em nada. Isso continua após a fase escolar e adentra no mundo empresarial. Resultado: um circo.

O vocabulário torna-se paupérrimo em virtude da rapidez e facilidade dos dispositivos móveis. As interações são virtuais. O lado bom disso é que os alunos absorvem muita informação. Na mesma moeda, não entendem muito sobre essa informação, pois, comprometeram e sacrificaram a vontade de aprender para facilitarem a vida através da minimalização. Muitas escolas estão deficientes em tecnologia. Professores mais antigos não conseguem acompanhar essa onda e estranham cada vez mais o modo que os alunos se comunicam.

Muitos alunos não conseguem entender conteúdos formais, linguagem castiça (de boa qualidade). Não sabem expressar-se sem o uso de gírias e a escrita é uma mixórdia ridícula. Ainda acham engraçado quem fala muito bem. E acham normal a falta de regência verbal, nominal, conjugação verbal completamente errada. A mediocridade é aplaudida. Não existem referências do que é bom para eles. Eles simplesmente deixam de ler livros adequados e indicados pelos professores e preferem resumos falhos e fracos. Dispensam a leitura por mera preguiça. Mas, ouvem letras insanas de funk e dedicam-se ao ócio lobotomizador.

A compreensão de textos está completamente condenada pelo modo atual de absorção de conteúdo. Não entendem enunciados. Não sabem expressar-se. Não prestam atenção. Não concentram seus esforços sem reclamação. Para muitos alunos, a escola é um fardo inútil, pois, acham que são obrigados a estarem lá, por imposição dos “vilões": pais, professores e direção escolar.

E então, quando a escola tem de fazer seu papel como gestora do ensino, muitos diretores que fazem as vontades dos pais e mães, erram em corrigirem seus professores para não serem tão formais e/ou verborrágicos. Na visão de alguns diretores, um professor que possui vernáculo castiço é considerado prolixo. Quando o professor deseja ensinar seus discentes o valor da boa comunicação, alguns gestores tolhem essa ação, chamando-a de prolixia (algo enfadonho e cansativo).

O aluno mediano de hoje não está preocupado com a lição a ser feita. Mas, com a nota da prova a ser tirada, mesmo que mediana, a qualquer custo, por meio de “cola" e de sabotagem das ordens estabelecidas pelo professor, que mais parece hoje, algo tão descartável quanto um marcador de quadro branco usado.

O aluno de hoje não deve “levar bronca", não pode ouvir “não" do professor, não pode sair da sala por mau comportamento. O professor não pode mais chamar a atenção de aluno, mesmo que este esteja fazendo tudo para atrapalhar a aula. Então, o docente ainda tem de trabalhar em um ambiente fechado ao som maravilhoso de 85 decibéis de berros e gritos sem sentido durante sua estada no recinto profissional. A culpa pelo barulho é ainda do professor, que “permite" essa situação. Oras, não é possível nenhum tipo de limitação.

O aluno pode depredar a sala de aula, escrever nas paredes e carteiras, e sujar o ambiente como quiser. Pode depreciar a autoridade em sala e pode até mesmo agredir verbal e fisicamente um docente. Nada vai acontecer. Mas, se o professor tentar corrigir o aluno problemático, este sim, terá muitos problemas com a direção. Não haverá correção para o aluno, cujos pais ameaçam a escola com a transferência desse aluno, deixando de pagar a mensalidade, caso o estudante tenha “problemas" com professores. A escola não culpa o aluno. Culpa o professor.

Por causa desse conjunto de ações desconstrutoras, o aluno de hoje, com todas as suas deficiências, já encontra apoio nas decisões das poucas direções escolares, que veem o professor sinérgico, participativo, letrado e articulado, com nível e envergadura intelectual, como uma ameaça ao aprendizado. Junta-se esse fato ao surreal comportamento preguiçoso e desleixado de alguns poucos alunos e pais autoritários/ausentes, e temos o atual cenário da pseudo-educação no Brasil.

Conclusão

Se você quiser ensinar hoje, prepare-se. Há diversos empecilhos como problemas hermenêuticos de gestão, pais omissos (por ignorância, desleixo, ou, falta de tempo) e alunos alheios às normas cultas do ensino. Porém, quem tem amor pela profissão, vai ensinar e dar o seu melhor, vai adaptar-se e vai levar quem tiver interesse em ter diferencial no futuro, para patamares mais qualitativos. É um desafio, mas, é assim que precisa ser. Resiliência é a palavra chave! Esse texto é uma reflexão sobre algumas observações ao longo de 20 anos de docência.

O professor que se dedica, que continua estudando e que possui muito conhecimento, é tolhido pela mediocridade de poucos que fazem com que o ensino tenha uma queda significativa de qualidade, com a anuência e aprovação de poucos políticos inúteis. Não pode usar vocabulário castiço com aluno, não pode corrigir comportamentos, não pode ter autoridade para corrigir problemas idiossincráticos dos discentes. senão, você será advertido! Pode até perder seu cargo por ser dedicado, estudado, comprometido com um futuro aceitável para os discentes.

Não critique meu vocabulário. Critique o modo como o aluno nessas condições aprende. Muitas vezes, ele nem sabe porque é assim. Critique a falta de dedicação, critique a preguiça do aluno, a falta de foco e sua postura em culpar os professores pela própria falta de força de vontade. Ao invés do aluno procurar a melhoria contínua, quer que tudo caia em suas mãos, sem esforço. Estudar exige dedicação. Compreender o mundo, normas, feitos, realizações etc, depende de como tudo pode ser interpretado. Quer uma solução? Deixe o professor trabalhar. Ele estudou, possui licenciatura. Dedicou-se a vida toda para saber seu lugar no mundo: a sala de aula!

A escola é o laboratório da vida. É o único ambiente de testes, onde o aluno poderá errar e ser corrigido sem ônus. Não haverá outro. O mercado é cruel. A vida é cruel. Para amenizar esse cenário, a escola deve dar ao professor autoridade para servir. Aprender a aprender é o legado de bons professores, que exigiram dos seus alunos para que possam estar bem preparados para o futuro. Se as direções escolares, juntamente com pais omissos, forem míopes, as cadeiras das suas escolas serão meras lembranças cinzas de tempos entediantes pela ótica distorcida de poucos alunos ruins e medíocres.

Invistam, gestores, em professores capacitados que conduzirão o conhecimento de modo assertivo, com disciplina.


Texto: Prof. Wagner Ballak, 2020.
Reprodução não autorizada.