“Não sou descartável por ter mais de 40 anos!"


A realidade é bem desanimadora para profissionais acima dos 40 anos. Duvida? Leia abaixo.


Um problema recorrente para os profissionais de mais de 40 anos é deparar-se com um infeliz e ridículo paradigma da área de Gestão de Pessoas. É consenso entre a maioria dos profissionais que o mercado vem preterindo profissionais nessa faixa etária.

Não. Não sou descartável. Sou como um bom vinho. Falo por mim e não estou sendo arrogante, nem pedante. Eu continuo estudando. Eu continuo a progredir, renovando meus conhecimentos e aprimorando áreas correlatas, aumentando meu poder intelectual e cognitivo por meio da renovação constante.

A experiência mostra que, na maioria das empresas, o conhecimento deu lugar ao Q.I. (quem indica). Simplesmente, não há mais espaço para talentos que lapidaram-se na forja do tempo e da melhoria contínua. A idade “pesa" para quem vai recrutar, pois, há um conjunto ridículo de paradigmas como visto abaixo:

  • Custam mais caro para a empresa.
  • Estão velhos(as) para a função e não atualizam-se mais.
  • Não querem fazer muitas horas extras.
  • Pessoas mais velhas não trabalham para um chefe mais novo, ou, com uma equipe jovem.
  • Pessoas mais velhas têm menos energia.
  • Pessoas mais velhas têm problemas de saúde. 
  • Pessoas mais velhas já têm dinheiro e não precisam do emprego.
  • Não são ágeis mentalmente.
  • Não conseguem lidar com a mudança. 

Eu leio essas insanidades pelos sites na internet e não consigo entender como chegam à essas conclusões medonhas. 

Continuo falando por mim. Eu sou um profissional completamente focado. Nunca desisti de nenhum de meus objetivos. Sempre fui esforçado, mesmo que tenha de mudar de área como já fiz 4 vezes. Não tenho problemas de saúde, nem tenho problemas com falta de energia. Treino diariamente, tenho 3 faixas-pretas em Artes Marciais, treino musculação como religião e meus exames médicos dizem que minha saúde é exemplar. 

Não tenho dinheiro, por isso, tenho de trabalhar muito. Nunca pensei em aposentadoria. Penso em ser útil em minhas escolhas. Sobre agilidade mental… que tal mencionar que tenho 2 licenciaturas em Matemática e 1 especialização em Física? Ah, claro. Estudei gestão empresarial na Universidade de Tampa e na Getúlio Vargas.

Sobre lidar com mudanças… não me lembro de ficar na zona de conforto. Só estudei disciplinas surreais na área das exatas, viajava pra outras cidades, gastei tudo que eu tinha para ter boa formação, nunca acomodei-me em uma situação “estável", pois, nunca houve uma. Tenho empresa, mudei de área 4 vezes. Nunca acomodei-me.

Trabalhar no que se gosta traz muitas vantagens, mas, a “montanha russa" sazonal das crises de mercado, referentes às demandas e ofertas, são tão cruéis que fica difícil não procurar readaptação. É só observar médicos, engenheiros, arquitetos, professores etc,  trabalhando com Uber, 99, Bla Bla Car. É um problema recorrente. O mercado não absorve mais tanta gente.

Não é problema de falta de demanda. Há muita demanda, mas, o mercado insiste em dizer que não há gente qualificada. Será? O que há realmente é que as empresas têm de pagar altas taxas de impostos e não têm incentivos fiscais para contratações. Um funcionário CLT custa 2x para a empresa. O custo é alto. O medo de não acertar é grande. E mais. Muitas empresas preferem os jovens que aceitam cargas de trabalho, muitas vezes, desumanas, sem uma política aberta de horas extras e benefícios.

Esses motivos não podem ser os únicos limitadores. Há mais motivos limitantes e não têm sentido, como a desculpa de ter muita gente disponível. Porém, o pior motivo é sobre a descrição de cargo. Exemplo. Se o candidato oferece-se para uma vaga que peça uma função específica e sabe que pode substituir aquela habilidade por uma correlata, é frustrado porque mesmo que possua todas, menos uma que pode ser substituída, ele será eliminado do processo. Claro, que há os testes práticos em seleções posteriores, mas, muitos já são eliminados na primeira etapa. 

Há os candidatos mentirosos, mas, esses já são eliminados na primeira fase. Então, não entram na análise deste texto. Quero ressaltar os talentos mais velhos que são preteridos.

O que ocorre mesmo é que as empresas querem uma molecada ansiosa, com experiência de gênios de 80 anos que aceitem trabalhar por frações de salários de verdade. Isso tem sido um problema frustrante.

Hoje, nós competimos com outros profissionais, com mulheres e com a molecada. Sim. Adolescentes. O que deveria ser o “divisor de águas’ (a experiência), passou a ser “fator limitante atrelado à idade". Idade tal qual já está determinada pelos “gurus" da área de RH como fim da estrada. É o fim para os quarentões, segundo um mercado míope e tendencioso. Uma piada sem graça e insana.

A maioria de nós, quarentões, não é descartável.

Eu tenho esforçado-me demasiadamente para competir em um mercado desigual, enfrento uma geografia desanimadora e ainda tenho de deparar-me com o despreparo de quem tem de contratar com esses paradigmas míopes e sem nexo. Não é simples ver bancas de análise com gente que não tem formação em determinada área e, ainda sim, está lá e dá veredito.

E mais. Os recrutadores precisam ler currículos extensos e eles não querem. Dizem que há milhares de documentos para analisar e que o tempo é curto. Como analisar a vida profissional pregressa do candidato se o currículo é um recorte? Que tal os profissionais de RH realizarem uma autocrítica e começarem a rever seus processos?

A peneira só pesa para o lado do candidato. E se ele, ou ela, tiver mais de 40 anos, só Deus poderá ajudar.


Texto: Prof. Wagner Ballak, 2020.
Reprodução não autorizada.